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ARTE/CIDADE | |
| por Lisette Lagnado |
Será possível surpreender o passeio do sujeito contemporâneo pela cidade com uma fração de pura imprevisibilidade? Esta discussão, que data da intervenções paradigmáticas de Richard Serra, Robert Morris e Christo, inseriu a obra de arte dentro de uma noção de "campo expandido"(1), onde a fruição estética ocorre sob o império do nomadimo. A estrutura da imagem contemporânea, distinta da modernidade pela articulação entre linguagens de várias naturezas, deslocou o suporte da arte para uma escala urbana. Hoje a obra (a escultura notadamente) não somente abdica do privilégio de um único ponto de vista, como investe na tentiva de pulverizar as metáforas da visão uma reavaliação da idéia grega do conhecimento, vinculada ao olhar. Uma "fenomenologia da percepção", inagurada por Maurice Merleau-Ponty, contesta a distância entre sujeito e objeto onde outros sentidos, como o tato, passam a ser mobilizados como condutos da experiência. Sob a curadoria de Nelson Brissac, a produção do evento "Arte/Cidade" trouxe todas as gradações teóricas que pontuam o debate sobre a pós-modernidade: a ruptura da obra com o mercado de consumo e sua consequente inserção no espaço urbano, a questão do deslocamento do público, novas tecnologias e interdisciplinaridade, a desmaterialização da arte e a construção de "objetos específicos". O centro antigo da cidade de São Paulo, onde convergem as atividades dos setores comercial e financiero, recebeu 22 artistas que confrontaram sua produção com a escala de uma cidade em alta rotação. Três prédios históricos e os arredores do Vale do Anhangabaú foram sitiados por artistas plásticos, fotógrafos, videomakers, cineastas, músicos e arquitetos. Mas, independente de seu lugar de atuação, o eventos se constitui como um sistema binário interagente. Sua interpretação portanto se situa dentro dessa lógica. Que tipo de "arte" foi pensada para os locais? Como uma peça instalada num lugar de passagem, ou num edifício de arquitetura ruidosa, procede de modo a estabelecer uma relação com a paisagem urbana? E ainda: qual é a dinâmica desta região com a paisagem urbana? E ainda; qual é a dinâmica desta região metropolitana? Como os traseuntes acolhem objetos estranhos a seu corpo social? Estavam presentes escultores vigorosos. Longe de apresentar um sentido literal da cidade, Waltercio Caldas operou sobre a perda do referente, sem estabelecer uma ligação mimética. Manteve um diálogo coerente dentro de sua trajetória de artista. "A Materia tem dois Corações" consistia num coração de touro jogado num cilindro de vidrio cheio de leite. No decorrer do tempo, os líquidos trocariam seus fluxos, ocorrendo uma "precipitação de um estado a outro". Não havia nada a contemplar nesta metáfora orgânica da cidade. Nela, os acontecimentos adquiriram uma tonalidade turva e surda. De essência meditativa, este trabalho sugeria a temporalização de uma zona liminar entre vida e desagregação. Outros artistas se debruçaram sobre o tempo que pulsa, cadência que determina a fruição do espaço. A poetisa Lenora de Barros, co-nhecida por uma apurada linguagem de tradição concreta, tentou registrar o movimento de liquefação do tempo e da imagem. "Ácida Cidade", além do trocadilho sonoro, apresentava, numa câmara asséptica, um gigante aparelho que deixava pingar a conta-gotas três mil bolinhas de pingue-pongue, marcadas com a inscrição "a cidade oxida". Numa poesia analógica, Artur Lescher imprimiu imagens da cidade sobre uma gelatina fotográfica. Esta, em processo de dissipação, ficou boiando dentro de um cubo de água, visível apenas na parte submersa da superfície: "película d'aqua vítrea na lente mental".(2) A tarefa de estabelecer uma relação entre os dois enunciados do projeto, isto é arte e cidade, coloca una exigência primordial: obra e espaço devem propiciar a impregnação física de um no outro. Nem todos os artistas enfrentaram o problema. Alguns trabalhos aderiram à velocidade urbana e sua leitura, voraz e ligeira, foi instantânea. "Gags" e " gadgets", ou até mesmo o malogrado discurso da participação do espectador, podem ter desqualificado certos trabalhos. Outras peças pediam uma dimensão temporal alheia à pressa do consumo, traindo um desejo romântico de resgatar o ritmo anterior à cidade baudelairiana. As instalações mais atentas à escala da cidade não foram realizadas pelos artistas plásticos. É o caso do fotógrafo Rubens Mano, autor do fascinente projeto de iluminação, "Detetor de Ausências": no alto de duas torres em posições opostas de 13 metros de altura, foram instalados dois holofotes militares, de 12 mil watts de potência. À noite, a luz destes poderosos faróis atravessava horizontalmente os pedestres do viaduto do Chá, projetando suas sombras e multiplicando a questão do anonimato. O público mais prevenido muniu-se de un mapa para explorar sua cidade desconhecida. Nesse percurso, chegou a perder-se entre os locais de exibição sem conseguir localizar todas as intervenções estéticas, pois a megalópole sorve con avidez os signos nela inscritos. Despreendida do trabalho didático de uma sinalização, a estrategia do evento insistiu na perda do prumo. A intenção curatorial transcendia a mera apresentação dos trabalhos. Por isso, as dificultades do trajeto devem ser compreendidas como constitutivas das obras: isto é, vários locais de exibição a serem desbravados, numa zona pedestre onde a entrada de carros é proibida, em meio a uma massa desenganada de "sem teto" que costuman se avolumar nas calçadas dos estabelecimentos e furtar transeuntes no tráfego nervoso das grandes avenidas. "Arte/Cidade" reintegra de forma contemporânea a expressão estética da cidade com seu manifesto político -una antítese fundamental para demovê-la da velha idéia de ocupação pública através de monumentos.
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